Patrão do ‘Sempre em Frente’: “O ‘Zé da Samaritana’ chorou a ver o seu barco afundar”
08 Janeiro 2021, 10:07
José da Guia, com 66 anos, patrão do pesqueiro “Sempre em Frente” de Viana do Castelo, acordou na madrugada do dia de Reis, sobressaltado com uma chamada telefónica.
Do outro lado chegava um aviso de que o seu barco, agora comandado pelo filho Ricardo Guia, tinha socorrido os tripulantes de outro, a “Samaritana”, a cerca de 16 milhas da costa.
Salvou os sete homens que iam a bordo.
A embarcação de pesca costeira, com cerca de 15 metros, meteu água e afundou perante o olhar impotente da tripulação já a salvo.
E o pranto desesperado do mestre, que também se chama José da Guia e dá pela alcunha de “Zé Relé”.
“O meu filho contou-me que o mestre estava a chorar. Chorou ao ver o barco a afundar. Não é fácil. Uma unidade daquelas, vale muito dinheiro”, contou José da Guia, patrão da embarcação que salvou a tripulação em apuros, num momento em que Ricardo, estava a descansar para, à noite, voltar a sair para o mar.
“Fui esperar o meu filho a chegar do mar. Ele estava um bocado emocionado. Viram o barco a adornar e a ir para o fundo. É um bocado chocante”, comentou.
Segundo relatou pela manhã o Comandante da Capitania do Porto de Viana, Luís Matias, a embarcação de pesca, matriculada em Vila praia de Âncora, afundou ao início da madrugada, a cerca de 16,6 milhas (32 quilómetros) da costa ao largo de Viana do Castelo. O alerta foi dado às 2.45 horas, já os sete tripulantes tinham sido resgatados pelo ‘Sempre em Frente’ se encontrava na zona do naufrágio. De acordo com o Comandante Luís Matias, foi enviado para o local o salva-vidas “Atento” que fez o transbordo e transportou os resgatados para terra. O mestre da “Samaritana” teve de receber assistência hospitalar porque “se queixava de dores num ombro”. A restante tripulação escapou ilesa.
“O meu filho estava a trabalhar, recebeu o pedido de ajuda e teve de largar. Demorou cerca de 20 minutos a chegar lá. Quando chegou com o barco à borda do outro, eles [os tripulantes] com aquela atrapalhação saltaram logo para dentro de qualquer maneira. Estavam a tremer cheios de medo. Foi um grande susto”, relatou “José da Guia”, que, desde que entregou o “Sempre em Frente” ao filho praticamente não vai ao mar. “O ‘Zé da Samaritana’ [mestre] ainda voltou a bordo para ir buscar o livro onde tinha as artes apontadas. Depois de cabeça não se ia lembrar e arriscou. Foi ao saltar [de um barco para outro] que se magoou”.
As duas embarcações andavam à pesca do polvo numa zona conhecida pelos “Secos”.
Fotografia: Rui Manuel Fonseca




















