A estátua do Caramuru foi um objeto polémico na cidade de Viana do Castelo. Houve uma polémica estética, que teve a ver, e bem, com a colocação. Enchia demasiado a Praça da República, que devia estar cheia de pessoas e não de objetos inanimados. Mas a intenção estratégica de Defensor Moura ao realizá-la foi uma boa ideia. O local onde a estátua está hoje colocada valoriza a obra de José Rodrigues e até faz sentido histórico.
Afinal, Caramuru naufragou na costa do Brasil e quase se afogou numa praia. Terá sido o primeiro ocidental a residir permanentemente no Brasil e casou com uma ameríndia, gerando uma família que se tornou uma das mais importantes da aristocracia brasileira, nos tempos do Brasil Colónia e Império.
A sua história está entre a lenda e a História. Aliás, poderia ter havido uma polémica histórica, já que há dúvidas sérias de que Diogo Álvares, o Caramuru (alcunha que parece vinda do nome local um peixe) tenha realmente nascido em Viana do Castelo.
Alguns historiadores brasileiros destacam que o Capitão Donatário de Porto Seguro, Pero Tourinho, que sabemos com segurança ser vianense, nunca o identificou como conterrâneo. Há documentos que o identificam como galego, termo que gera alguma polémica no real significado (afinal, em Lisboa, ainda há quem diga, por piada, que os do Norte são galegos).
Mas, seja como for, a ideia de criar um símbolo da ligação antiga de Viana ao Brasil foi uma boa ideia. Mas creio que não devia ficar no domínio dos símbolos.
O potencial da História dessa ligação para gerar fluxos turísticos é, em si mesmo, um elemento económico interessante (apesar da pandemia, a classe média brasileira está a crescer e tem poder de compra). E esse aspeto devia ser reforçado. Viana é arquitetonicamente muito parecida com algumas cidades brasileiras e isso torna-a atrativa para turistas dessa origem.
Se, no século XVII, Viana foi um dos grandes portos do Açúcar brasileiro e fonte de povoadores (durante vários séculos, com vagas largas no século XIX) até há, pelo menos, 2 cidades com nome de Viana (no Maranhão e Espírito Santo).
No próximo ano, o Brasil faz 200 anos de independência: que plano tem Viana do Castelo e o Alto Minho para, numa política regional de desenvolvimento económico, estratégica e de longa duração, aproveitar o pretexto para reforçar os laços com um mercado de dezenas de milhões de habitantes?
Além das habituais comemorações da amizade e da cultura (que acho excelentes) não viria a propósito organizar ações que relancem a relação económica entre esta região e o país continente que fala português?
E é uma relação económica com alguma continuidade histórica. Na verdade nem é nova mas precisa de reforço e seria mutuamente vantajosa.
200 anos de independência seria um bom pretexto.
Afinal quantos bons negócios, mutuamente vantajosos, não começam à mesa de uma festa?




















