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Opinião: A urgência de sabermos apalavrar a realidade

José Luís Carvalhido da Ponte

05 Agosto 2021, 9:00

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Há uns meses atrás, alguém me enviou um diapositivo onde se vê um balcão com dois postigos de atendimento. Sobre um está escrita a palavra ASPIRINA e, sobre o outro, a expressão ÁCIDO ACETILSALICÍLICO. Enquanto a fila para a Aspirina dá a volta ao quarteirão, o farmacêutico do Ácido Acetilsalicílico não tem vivalma. A justificar estes comportamentos, a frase de Albert Einstein: “Tudo o que o homem ignora não existe; portanto, o universo de cada um resume-se ao tamanho do seu conhecimento”.

Um dia, uma querida velhinha, já o repeti noutros espaços, perguntou-me se uma nação era assim como Meadela, Perre ou Santa Marta.

Na verdade, não há conhecimento sem domínio vocabular. Costumava repetir aos meus alunos que a independência de cada um tem relação direta com a quantidade de palavras que for capaz de compreender. E contava-lhes sempre um episódio que me havia acontecido, quando ainda jovem.

Por volta de 69, o meu pai mandou que fosse à Repartição de Finanças de Viana para tratar de uns assuntos relacionados com uma propriedade. Na altura, a Repartição de Finanças, situada onde hoje se encontra o Apoio ao Munícipe, tinha um comprido balcão: de um lado os munícipes e do outro os funcionários. Naquele dia, e penso que em todos, estava muita gente à espera de ser atendida. Coloquei-me em segunda fila e fui ouvindo a conversa entre um adulto, na casa dos 40 anos, e o funcionário. A dada altura, o técnico das Finanças perguntou-lhe se havia entendido e obteve um timidamente discreto assentimento de cabeça. O agricultor agradeceu e, ao virar-se para trás, sussurrou-me: “ouviu o que me disse, não ouviu? Explique-me, por favor, que eu não entendi nada, mas tive vergonha, depois de tanta explicação”.

O agricultor não entendeu, tão-só, porque não dominava um conjunto de palavras. E nem foram tão “caras” assim. O agricultor sentiu-se encurralado entre a sua necessidade e o discurso que lhe fora feito. O agricultor não era tão livre quanto, eventualmente, se julgava. Mas não quis maçar mais o funcionário e, delicadissimamente, pediu-me ajuda. Que o que se passava é que precisava de erguer um muro num terreno seu e queria saber a quem pertencia o do lado, para falar com o dono, que “não quero entrar no que é dele”.

Com efeito, o conhecimento de cada um de nós mede-se pela nossa competência linguística e não apenas pelos diplomas que possuímos. Timothy Snyder, no livro “Sobre a Tirania” (Relógio D’Água),encabeça a reflexão 9 com o seguinte aviso: “Evita proferir frases que os outros repetem. Procura a tua própria maneira de te expressares, mesmo se quiseres apenas comunicar a mesma coisa que achas que todas as outras pessoas estão a dizer. Faz um esforço para te distanciares da Internet. Lê livros”. (p. 49) No corpo do artigo, e para reconfirmar este “Lê livros”, afirma que, por exemplo, o livro Harry Potter e os Talismãs da Morte é uma “descrição da tirania e da resistência” a merecer uma segunda leitura a quem disso não se apercebeu.

As palavras chegam-nos carregadas de secreta memória e só seremos capazes de saber apalavrar a realidade se as escutarmos nas “suas conchas puras”. (Eugénio de Andrade)

Aproxima-se um tempo de campanha para as autárquicas e é forçoso que cada um de nós se prepare para ser capaz de tirar as usas próprias conclusões.

 

José Luís Carvalhido da Ponte

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