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CENAS DA NOSSA HISTÓRIA RECENTE

César Brito

12 Julho 2021, 9:00

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O país tem assistido nos últimos tempos a uma sequência de processos, inquirições e detenções mediáticas e prepara-se para anos de julgamentos, sentenças e recursos. Os casos são diferentes entre si mas muitas vezes interligados pelos protagonistas, pelos factos ou pelos métodos usados e foram sendo expostos à opinião pública em pequenas partes por fugas de informação, por investigação jornalística, por audiências em comissões parlamentares de inquérito e, nos capítulos finais, por acções do sistema judicial.

Subitamente, foi como se o pano-de-boca subisse e os portugueses começassem a assistir uma tragicomédia sobre a história recente do país com o detalhe de o preço do bilhete ser pago por todos nós e ter um preço exorbitante.

Todos os casos, de uma maneira ou de outra, têm idênticos argumentos e os cenários também não são muito variados. Em resumo, houve um período da nossa história recente em que certas personagens do poder político delinearam tomar o controle de determinados sectores e certos personagens do poder económico ambicionaram dominar determinadas áreas. Juntou-se a fome com a vontade de comer e isso só poderia redundar num fartote. O problema é que não temos estrutura para digerir tanto.

Vou-me abster de comentar os casos em particular. Concentremo-nos no enredo comum. Houve um período da nossa democracia em que deixamos que políticos se organizassem com banqueiros, utilizassem uns supostos empresários visionários, gestores de topo e juristas brilhantes para desencadear um conjunto de operações de aquisição e controle de sectores estratégicos, tendo como base o primado da economia financeira sobre a economia real. As questões jurídico-criminais ainda serão apuradas mas já não há dúvidas que conceitos como ética, responsabilidade social ou bem comum não eram conhecidos por estes personagens que actuaram todos convencidos do sucesso e genialidade dos seus negócios, suportados na sua importância social e mediática e bem untados com um indestrutível sentimento de impunidade. Afinal, estava tudo sob controle, como era o objectivo, e gente da política, economia e justiça partilhavam interesses comuns na dependência uns dos outros. Quando os primeiros sinais de crise económica começaram a expor alguns esquemas estranhos, indignaram-se às primeiras notícias. E o país desconfiava que “onde há fumo há fogo”. Quando a trama começou a ficar demasiado evidente, escudaram-se na presunção de inocência e na legalidade das suas acções. E o país, de brandos costumes, condescendia no direito à presunção de inocência jurídica, mas já não deixava de fazer o julgamento moral. Pelo meio, alguns passaram por comissões parlamentares de inquérito deixando para memória futura os episódios mais marcantes de desrespeito institucional, prepotência pessoal e expressão altiva de impunidade, além da maior ocorrência de amnésia colectiva de que há memória.

Personagens secundárias deste enredo continuam, sem vergonha, a sua vida pública. Não viram, não sabiam, não perceberam, estavam no mesmo palco mas nem por uma fracção de segundo deram conta das movimentações das restantes personagens. Portanto, tão inocentes como qualquer um de nós, meros espectadores.

Este foi o teatro de um período recente da nossa história que a democracia permitiu que acontecesse. Portanto, todos o permitimos e convém que levemos destes acontecimentos lições para o futuro A outra escala, comportamentos semelhantes já tinham sido ensaiados em autarquias. Mesmo condenadas e demonstrada a pouca honestidade e dimensão ética das personalidades, o pragmatismo eleitoral voltou a elegê-las sancionando social e politicamente o comportamento que a justiça condenou. Depois não vale a pena vir bradar aos sete ventos que a democracia está fraca e o nível dirigente é medíocre ou achar que um qualquer radical populista é que é preciso para que o estado funcione com decência. A qualidade de uma democracia é sempre dependente das atitudes e escolhas dos seus cidadãos, todos os dias e não só de vez em quando. Winston Churchill disse um dia que “a democracia é a pior forma de governo, à excepção de todas as outras”. Eu acrescentaria que também é a mais auto destrutível. E esquecemo-nos disso demasiadas vezes.

 

César Brito

 

Por opção pessoal o autor escreve segundo a antiga ortografia

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