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Crónica de opinião: “Cansado de mim!”

José Luís Carvalhido da Ponte

20 Agosto 2021, 9:00

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Há dias, um amigo desabafava: “quando à noite chego à cama, sinto-me cansado de mim. Cansado do que quero. Cansado do que tenho. Cansado do que não tenho. Cansado do que sou ou de não saber quem sou”.

Giles Lipovetsky, em 1983, chamava, ao nosso tempo, o “reino da personalidade”[1] . Para este professor de filosofia na universidade de Grenoble, cada Eu busca revelar-se na sua verdade plena, na sua mais genuína autenticidade.
A este propósito, e comentando Lipovetsky, José Carlos Ruiz[2] descobre um pouco mais a cansativa e ditadora subfície deste “reino da personalidade” que não apenas nos exige sabermos quem somos, mas pretende também que nos esventremos e tornemos pública a nossa mais íntima forma: “hay que […] exibir nuestro mundo, narrar nuestros logros, contar nuestros anhelos, publicar nuestros sentimentos, hacer gala de nuestras opiniones, exponer nuestras creaciones, subir nuestras fotografías, «compartir» nuestras reflexiones … Todo está orientado a huir de lo impersonal, que se percebe como sustracción, como negatividade.”
Ora viver este “reino da personalidade” coloca-nos o mesmo desafio que as águas espelhadas da lagoa de Eco colocaram a Narciso; queremos ser a nossa totalidade, agarrar a banda de lá do espelho para dissiparmos a dúvida: o que é mais real? O Eu que olha o espelho ou o Eu espelhado? O Eu ou o Mim? O que me sei ou o que me sabem? Se quero ser um homem de êxitos tenho de ser capaz de me controlar e de controlar toda a minha circunstância e de com ela me identificar. Por isso quanto mais depressa me deixar clonar mais rapidamente me sentirei integrado no universo e isso me dará a sensação de poder. Para Baudrillard, a cultura clona-nos e a “clonagem mental antecipa qualquer clonagem biológica”. Na verdade, a escola, os média, as aculturações fazem com que de seres singulares nos tornemos cópias dos outros. Nos primórdios da segunda metade do século passado, as calças dos portugueses eram de cotim, mais ou menos encorpado. As dos cowboysamericanos eram de ganga e, porque a América soube exportar mais do que nós, passamos todos a vestir ganga, soldadinhos de chumbo, todos iguais, todos alinhados. Clonados. Para que o clã nos aceitasse.
Esta necessidade de sermos tudo e todos, o antes e o depois do espelho, isto é, todos inteiros e iguais, pode, em muitos de nós, originar uma dolorosa angústia existencial: Quem sou, afinal? Penso por mim ou sou, tão só, mais um borrego na manada?
Este “excesso de identidade”, contudo, pode não ter efeitos nefastos, salvo quando gera ansiedade e logo-logo depressão que, para Alan Ehrenberg, citado por Ruiz, se traduz no cansaço de cada um ser ele mesmo: “la fadiga de ser uno mismo
Voltarei a este assunto na próxima crónica.

José Luís Carvalhido da Ponte

 

[1] in “A Era do Vazio – ensaio sobre o individualismo contemporâneo”, Relógio D’Água, trad. de Manuel Serras Pereira e Ana Luísa Faria

[2] “Filosofía Ante El Desánimo”, p. 16, Editorial Planeta, janeiro 2021, Barcelona

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