LetsHome transforma o Coração da Romaria em têxteis que vestem casas do Japão à Austrália
19 Julho 2026, 11:22
A marca vianense LetsHome lançou a sua mais recente coleção de têxteis-lar: "O Coração é a Alma da Romaria". Totalmente produzida pela Vianatece, a linha funde fotografia, pintura e design para transformar o icónico Coração de Viana e a tradicional faiança azul em peças de decoração e uso diário. O projeto, idealizado por Eduardo Carvalho e materializado pelos artistas Vítor Roriz, Ana Rego e Ana Gomes, promete levar a magia da Romaria d'Agonia para lares em todo o mundo.
Numa vibrante homenagem à identidade do Alto Minho, a marca portuguesa LetsHome, impulsionada pela visão do empresário Eduardo Carvalho, lançou esta sexta-feira na histórica Praça da República, em Viana do Castelo, a sua nova coleção de têxteis-lar intitulada “O Coração é a Alma da Romaria”. Fruto de uma estreita colaboração criativa que une a curadoria fotográfica de Vítor Roriz, as ilustrações e pintura de Ana Rego e o design têxtil de Ana Gomes, a linha transforma o icónico Coração de Viana e a tradicional faiança azul em peças de conforto contemporâneo. O resultado é um projeto 100% local que promete democratizar a arte da cidade e exportar a essência da Romaria d’Agonia para lares de todo o mundo.

Imagine uma mesa de jantar em Tóquio, ou um quarto de hóspedes em Sydney, adornados com os intrincados arabescos azuis da cerâmica minhota e a silhueta inconfundível do Coração de Viana. O que outrora estava estritamente confinado ao peito das mordomas durante os dias de agosto na capital do Alto Minho, ganha agora uma nova morada: o conforto do lar, em qualquer fuso horário.
Foi com esta ambição de eternizar a tradição que a Praça da República, em Viana do Castelo, acolheu na passada sexta-feira, 17 de julho, a apresentação da nova coleção da LetsHome. Mais do que um simples lançamento de catálogo sazonal, o evento assumiu-se como um manifesto de resiliência cultural. Numa era dominada pelo fast-design e pela decoração massificada e impessoal, a marca minhota provou que é possível cruzar a herança antropológica com o utilitarismo contemporâneo.
Batizada de “O Coração é a Alma da Romaria”, a coleção é o culminar de um complexo ecossistema criativo que junta indústria e belas-artes, provando que o lema da marca — “Do tear para o lar” — é muito mais do que um slogan; é um compromisso com a identidade nacional.
O ponto de partida desta epopeia têxtil tem um nome: Eduardo Carvalho. Como rosto e impulsionador da VianaTece e da marca LetsHome, o empresário compreendeu cedo que a riqueza visual da Romaria de Nossa Senhora d’Agonia não podia viver apenas de memórias fotográficas ou do artesanato tradicional. Tinha de ser palpável e diária.
“O nome da coleção, ‘O Coração é a Alma da Romaria’, foi criado para mostrar a quem nos visita que este símbolo faz parte intrínseca da cidade e da nossa maior festa,” explicou o empresário durante a apresentação. Contudo, a estratégia da LetsHome não se esgota nas fronteiras de Viana, nem sequer nas de Portugal.
A produção, assumidamente e orgulhosamente concebida e confecionada na região (“Tudo produzido pela VianaTece”), é uma rampa de lançamento para a internacionalização. “Apresentamos estas coleções a clientes de toda a parte do mundo: Japão, Alemanha, França, Austrália. Temos clientes no Japão que apreciam muito estas coisas de Viana,” sublinha Eduardo Carvalho. É o triunfo do glocal — pensar globalmente através da valorização extrema do que é profundamente local.
Para que a cultura não seja um luxo inacessível, o empresário frisou ainda o pendor democrático do projeto. Se há peças de segmento médio-alto destinadas a decorações requintadas, há também pequenos embaixadores culturais a preços convidativos, como panos de cozinha a 5,40€. “Assim, qualquer pessoa pode levar uma imagem de Viana para a sua casa,” remata.
Mas como se transforma uma joia em filigrana e a folia de uma romaria num lençol de cama que convide ao repouso? Esse foi o desafio entregue a Vítor Roriz, experiente fotógrafo e curador do projeto.
O trabalho de Roriz vai muito além de premir o botão da máquina fotográfica. A sua missão é a curadoria de um sentimento. “Isto é idealizado pelo proprietário, Eduardo Carvalho, que me passa a ideia. Como curador, a minha tarefa é convidar artistas da nossa cidade para colaborarem,” detalha.
Sobre a complexidade de trabalhar o Coração de Viana, Roriz é perentório: “Há milhares e milhares, para não dizer milhões de fotografias do Coração. A dificuldade aqui é conseguir imaginar, no momento do disparo, como vamos transpor isto para a área têxtil.”
O fotógrafo levanta uma das questões mais fascinantes do design de interiores: a psicologia do conforto. Uma imagem vibrante de festa pode ser estonteante num quadro, mas asfixiante numa mesa de jantar ou num quarto. “Queremos relax, queremos sentir-nos em conforto. Ter coisas que nos afetem visualmente numa mesa onde repartimos a emoção com a família, ou numa cama, não é bom. O desafio é imaginar a leveza antes do produto final.”
Para contornar o “peso” visual da filigrana dourada, Vítor Roriz recorreu ao talento da pintora e ilustradora Ana Rego. Há dois anos a colaborar com a LetsHome, Ana Rego foi a responsável por dar textura, cor e fluidez à visão do curador e do empresário.
A sua abordagem foi, no mínimo, engenhosa. Em vez de ilustrar a joia de forma isolada e pesada, decidiu fundi-la com outro pilar do artesanato vianense: a cerâmica.
“Peguei no coração em filigrana e, para não ficar uma imagem pesada, fui buscar o tema da pintura na cerâmica de Viana. Aqueles ‘rabiós’, aquelas cornucópias, e fiz uma mistura para tornar o padrão mais leve,” explicou a artista plástica. O azul cobalto característico da faiança da antiga Fábrica de Darque abraçou as curvas do coração, resultando numa aguarela onde a tradição respira com uma surpreendente aura de modernidade.
Para a artista, ver a sua obra abandonar as paredes das galerias para invadir a intimidade das casas é um privilégio: “Passar a arte para algo utilitário é desafiante. Tenho sempre de pensar que o meu desenho vai ser usado para roupa de cama ou de mesa.”
A última paragem desta viagem criativa, antes das máquinas de estamparia e dos teares da VianaTece, decorre no ateliê de Ana Gomes, a designer residente. Se Ana Rego sonhou e pintou as formas, Ana Gomes teve de as encaixar na matemática implacável do design de padrões têxteis.
“O Vítor traz as fotos, junta-se com a Ana Rego, eles pegam nos elementos da Romaria, ela desenha e depois o material vem para mim,” descreve a designer sobre o fluxo de trabalho. Durante cerca de dois meses, Ana Gomes debruçou-se sobre a ilustração para a transformar numa coleção completa, que inclui “a toalha, o cesto do pão, o individual, o tapete e a passadeira de mesa”.
Trabalhar os símbolos da sua própria terra é, para Ana Gomes, um exercício de emoção contínua. “O tema varia todos os anos, pelo que conseguimos explorar imenso a nossa cultura. Chegar à loja e vê-la preenchida com as nossas coleções, com aquilo que eu consegui fazer, é, sem dúvida, uma enorme alegria.”
E a resposta do público tem sido avassaladora, ao ponto de ditar os próximos passos da marca. “As pessoas adoram, querem comprar. Já sei que pedem mais cores e isso ajuda-me a completar ainda mais a coleção nos próximos tempos.”
A Praça da República, inundada pela luz quente de uma tarde de julho, serviu de cenário perfeito para esta revelação. Num momento em que Viana do Castelo se prepara, com indisfarçável ansiedade, para a efusão de agosto e da sua Romaria d’Agonia, a LetsHome entregou à cidade (e ao mundo) uma forma de prolongar a festa para lá do final do verão.
Mais do que panos, toalhas ou lençóis, a coleção “O Coração é a Alma da Romaria” é um documento histórico tecido em algodão. É a prova irrefutável de que a indústria tradicional portuguesa não precisa de competir na arena do produto descartável. Ao investir em curadoria artística, ao apostar no talento local e ao cruzar os ícones do passado com a funcionalidade exigida pelas casas do presente, a VianaTece e a LetsHome erguem uma ponte entre o Minho e o Mundo.
Esta noite, em qualquer lugar do globo, alguém poderá deitar-se rodeado pelos ecos de Viana do Castelo. E é precisamente aí, nesse encontro silencioso entre uma cultura secular e a vida quotidiana contemporânea, que reside a verdadeira alma desta coleção.


























