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O adepto de província e o custo real de acompanhar o seu clube

Rádio Alto Minho

28 Setembro 2026, 14:39

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Sábado à tarde. Fim de semana de Liga Portugal 2. O adepto do Feirense, do Chaves ou da Académica abre o telemóvel para confirmar onde passa o jogo — e, nalguns fins-de-semana, não encontra resposta. Não é avaria, não é esquecimento: é o estado normal de uma divisão onde a cobertura televisiva não está garantida para todos os jogos.

Sábado à tarde. Fim de semana de Liga Portugal 2. O adepto do Feirense, do Chaves ou da Académica abre o telemóvel para confirmar

Os grandes debates sobre direitos televisivos raramente mencionam este adepto. Falam dos contratos, dos operadores, da Liga Portugal com os seus 18 clubes da primeira divisão, e da venda centralizada dos direitos televisivos que a lei impõe à I e à II Liga a partir da época 2028/2029. O adepto de uma cidade de interior, com o clube na segunda, fica fora do enquadramento — mas é ele quem sente de forma mais directa aquilo que os dados documentam.

A subscrição que não chega

O primeiro custo é o mais óbvio: ver futebol em Portugal custa dinheiro, independentemente da divisão. Entre 9 de Agosto e 16 de Setembro de 2026 — 27 dias com jogos, num estudo que cobriu 182 partidas —, nenhum jogo de futebol passou em sinal aberto. Zero jogos na RTP, na SIC ou na TVI. O período não inclui a Taça de Portugal, que não tinha começado e que habitualmente leva alguns jogos à RTP. Mas para a Liga Portugal 2, que é o que importa para os adeptos dos clubes da segunda divisão, o saldo em sinal aberto seria o mesmo: zero.

Para ver o clube, é preciso subscrever a Sport TV, ou a Benfica TV nos casos em que os adversários são o Benfica B. Uma subscrição que, nas cidades maiores, é um item de consumo entre outros. Nas cidades de interior, com rendimentos médios mais baixos e com famílias que gerem o orçamento com maior cuidado, o peso relativo dessa despesa é diferente. Não é impossível, mas é um esforço que os dados não reflectem.

Saber onde passa o jogo

O segundo custo é menos falado e igualmente real: saber com antecedência onde o jogo vai passar. Na Liga Portugal, a questão é simples — o canal está marcado com vários dias de avanço e praticamente nunca muda. Na Liga 2, a situação é mais instável.

No mesmo período de 27 dias, a Liga 2 registou uma taxa de cobertura de 88 % de canal identificado — a mais baixa de todas as competições na amostra, e a única que ficou abaixo dos 100 %. Os quatro jogos sem canal identificado eram todos da Liga 2. Isso significa que, num em cada oito jogos, aproximadamente, o adepto que foi verificar onde passava o jogo não encontrou resposta na grelha.

Quando há canal, a questão seguinte é qual. A Liga 2 passou pelos canais Sport TV 1, 2, 3, 4, 6 e 7, pelo Sport TV+ e pela Benfica TV. Não há uma lógica imediatamente previsível para perceber qual o canal de um determinado jogo sem consultar a grelha. Para o adepto do Felgueiras 1932, o jogo contra o Farense passou na Sport TV 7; o jogo contra o Chaves passou na Sport TV 6; o jogo do Vizela contra o Felgueiras passou na Sport TV 1. Três canais, três momentos diferentes de confirmação necessária.

A informação que chega tarde — ou não chega

Para o adepto que não vive nas cidades onde os canais de cabo têm cobertura estável, há um problema adicional que precede todos os outros: a informação. Saber que o jogo do clube passa na Sport TV 4 às 18h00 de sábado é útil se essa informação chegar com antecedência. Se chegar poucas horas antes, ou se o canal só aparecer no dia, o adepto que trabalha ao fim-de-semana, ou que tem família, ou que precisa de fazer algum tipo de gestão de tempo, fica em desvantagem.

O Dia de Jogo agregou os dados de transmissão para o período de 9 de Agosto a 16 de Setembro, jogo a jogo, com o canal exacto quando disponível. É precisamente o tipo de informação que resolve o problema concreto do adepto que não quer perder o jogo mas não tem tempo para monitorizar múltiplas plataformas.

O adepto que vai ao estádio

Há um adepto da Liga 2 que não precisa de televisão: o que vai ao estádio. E em muitos dos clubes da segunda divisão, este adepto existe em número apreciável — a relação com a cidade é mais próxima, o estádio está a dez minutos de casa, e o bilhete não exige deslocações longas. Há autarquias que facilitam o caminho até à bancada: em Viana do Castelo, o município pôs autocarros gratuitos até ao estádio num jogo do SC Vianense, por falta de estacionamento junto ao Estádio Dr. José de Matos. Para este adepto, a grelha televisiva é irrelevante: o que importa é o jogo ao vivo, a voz do treinador do adversário do outro lado do relvado, o calor das bancadas.

Mas o adepto que não pode ir ao estádio — por razões de trabalho, de saúde, de distância ou de família — precisa da televisão. E é esse adepto, o que está em casa num sábado à tarde a tentar perceber onde passa o jogo, que sente de forma mais directa o que os dados documentam: a Liga 2 é a divisão onde a cobertura televisiva é menos garantida, e onde o esforço de acompanhar o clube exige mais trabalho de pesquisa antes de mais nada. Uma jornada na Liga Portugal é previsível. Uma jornada na Liga 2 pode ser uma incógnita.

O que os dados não medem

O estudo que documentou estes números mede grelha de transmissão, não audiências. Não é possível saber, com estes dados, quantas pessoas tentaram encontrar o jogo e não conseguiram. Não é possível saber quantos adeptos de Chaves ou de Leiria desistiram de procurar o canal e não viram o jogo.

O que é possível saber é que a fractura existe: entre uma divisão onde a cobertura é total e outra onde é parcial, entre um adepto da Liga Portugal e um adepto da Liga 2, entre a certeza e a incerteza do canal. E que essa fractura é mais pesada para quem vive longe dos centros urbanos maiores, com menos alternativas e com menos tempo para gerir a complexidade de uma grelha que muda de jogo para jogo, de canal em canal, de Sport TV 1 a Sport TV 7 e de volta ao Sport TV+. O adepto de província adapta-se, como sempre se adaptou. Mas o esforço é real, e os dados de 2026 confirmam que não é imaginação sua.

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