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O apelo de D. João Lavrador na Romaria da Agonia: “Permaneçamos Humanos”

Rádio Alto Minho

12 Agosto 2026, 15:07

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“No meio de uma existência cada vez mais ameaçada pela artificialidade, dirijo a todos um pedido: Permaneçamos Humanos.” É com este apelo que o bispo de Viana do Castelo, D. João Lavrador, assinala a Romaria de Nossa Senhora da Agonia 2026.

Numa mensagem publicada pelo Diocese, o  bispo defende que a Romaria deve ajudar a construir “uma paz desarmada e desarmante” nas famílias, comunidades e relações.

 

Mensagem

“Sempre que a Romaria de Nossa Senhora da Agonia ocupa o coração de Viana e, nele, o coração de todo um país, regressam duas perguntas: Como podemos construir uma cidade? E como podemos construir e festejar juntos a Humanidade que somos?

Durante a Romaria, mesmo estando na capital do Alto Minho, cantamos: “Havemos de ir a Viana”, porque uma festa é sempre a oportunidade de habitar o mundo de modo mais pleno. Estamos em Viana, mas queremos ir a Viana, porque, entre incertezas e desafios, desejamos corresponder “ao mais” que somos, e que tantas vezes temos submergido.

É verdade: nem sempre é fácil construir juntos. Como referiu o Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas, com rapidez, seguimos a “idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos” ou “a uniformidade, que anula as diferenças”. Temos dificuldade em transformar “a diversidade num recurso, fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade”. Mas, a cada momento da Romaria, anunciamos que a Humanidade “renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo”.

É verdade: a nossa relação com a vida parece estar hoje em crise. Tudo o que se apresenta como limite parece ser interpretado como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde podemos amadurecer. Mas, a cada ano, a Senhora da Agonia recorda que a Humanidade “não floresce apesar dos limites”, mas através deles. Como escreveu o místico cristão Isaac de Nínive: “só quem chegou ao conhecimento da sua própria debilidade, chegou ao fundo da sua humildade”.

É verdade: tendemos a pensar que a finitude empobrece o ser humano. Mas a Senhora da Agonia relembra que é a vulnerabilidade que nos torna capazes de intuir uma fraternidade maior do que nós próprios.

É verdade: quando a eficiência se torna a medida de tudo, o ser humano desenraíza-se e acaba por ser visto como algo a otimizar. Mas a Senhora da Agonia traz-nos sempre à memória que quem ama não pode evitar passar por um caminho de “liberdades e quedas, sonhos e desilusões”.

O poeta Rainer Maria Rilke confessou, a certo momento, que sentia que a Humanidade se estava a tornar uma “dissipadora de dores”. Felizmente, sabemos que a Senhora da Agonia, passando pelas ruas da cidade, acolhendo tantos devotos no interior do santuário e olhando para cada um, chora com quem tem medo de chorar, abraça quem tem medo de abraçar, alegra-se com quem tem medo da alegria.

Por tudo isto, no meio de uma existência cada vez mais ameaçada pela artificialidade, dirijo, a todos, um pedido: Permaneçamos Humanos. Como cristãos, sabemos: só fiéis à Humanidade podemos ser verdadeiramente fiéis a Deus.

Que a Romaria de Nossa Senhora da Agonia nos ajude a encontrar caminhos para “uma paz desarmada e desarmante” nas nossas famílias, nas nossas comunidades e nas nossas relações. Que o tempo de paz e de regresso a casa que a Romaria de Nossa Senhora da Agonia representa perdure todo o ano. Que levemos amor onde há indiferença; perdão onde há ofensa; esperança onde há desespero; alegria onde há tristeza; luz onde há trevas.

Por fim, quero deixar um obrigado e uma promessa de oração. No interior do Santuário de Nossa Senhora da Agonia, ladeando a sua imagem e a do seu Filho morto, vemos seis figuras que representam todos os que ajudaram a cuidar de Jesus durante e após a Paixão. Gosto de ver nelas, também, o rosto daqueles de quem depende tudo aquilo que iremos viver, em particular, o dos que abdicam de si e dos seus, nas mais diversas circunstâncias, para construir, organizar e levar a cabo a Romaria. A todos eles: Muito obrigado. Mas quero também unir-me em oração por todas as vidas perdidas no mar. Por aqueles que partiram e pelas suas famílias que, no meio de um enorme sofrimento, continuaram a acolher a vida e o futuro, rezo de modo especial nestes dias.

 

Boa Romaria para todos!

Que o olhar de Nossa Senhora da Agonia nos renove a bondade!

João Lavrador,
Bispo de Viana do Castelo”

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