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PENSO, LOGO FAÇO TURISMO

Antero Filgueiras

09 Junho 2021, 9:00

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MINHO – que caminho para Turismo 2027?!

A convite do meu amigo e colega de Rádio de há algumas décadas, Miguel Costa, iniciei neste mês de Junho a minha colaboração escrita com este espaço, onde tentarei deixar opinião e essencialmente boa informação sobre os caminhos a trilhar pelo Turismo do Minho e no Minho, com um único propósito: dar notoriedade à sua marca.

Há muito que é mais do que sabido entre especialistas (e não especialistas também) que os planos estratégicos, apesar de ter importantes ferramentas de trabalho, só por si, não são garantia do sucesso de uma atividade, e muito menos o são no complexo sector de actividade que é o Turismo ou mais exactamente a Economia do Turismo. Mas impõe-se dizer em boa verdade que são úteis, necessários e imprescindíveis.

Portugal, através do ITP-Instituto de Turismo de Portugal, muito antes da pandemia apresentou a sua ESTRATÉGIA TURISMO 2027 – ao qual na esteira estatizante de planos anteriores propõe, com “audácia”liderar o Turismo do Futuro. Só não diz, entre muitas outras coisas, a que preço, ao mesmo tempo que mantém uma fórmula que considero negativa para as marcas regionais, estruturadas a partir do território. Apesar de minha opinião sobre o documento em questão ser tida como a água – incolor, insípida e inodora – a verdade é que os “donos nacionais” do Turismo e seus “boys” não podem teimar em ignorar que Turismo assenta em território, com tudo o que nele nasceu, se desenvolveu, cresceu e que os diferentes agentes com intervenção directa no sector – públicos e privados – procuram fazer, em sede de um diálogo que está longe de ser o mais desejado e conseguido.

Obviamente que não quero com isto dizer que esteja em total acordo com tudo o que consta do supra mencionado documento estratégico, mas continuo a pensar e a defender que jamais seria benéfico para Portugal o fim de muitas das regiões vinícolas demarcadas. E creio que nem preciso de explicar os inúmeros porquês, pois qualquer pessoa minimamente atenta identifica inúmeros. Ora acontece que no exacto domínio do Turismo tudo começou mal com a Estratégia Nacional de Turismo produzida pelas “luminárias” de Bernardo Trindade, mas tudo piorou com Cecília Meireles para agradar a uma Troika, que até nem estava nada preocupada com a organização do Turismo em Portugal, mas sim com o manifesto excesso de autarquias – câmaras municipais e juntas de freguesia.

Nem que considere que esgota a matéria. Trata-se, no entanto, de uma boa base trabalho para consolidarmos uma visão nacional de Turismo e avançarmos rumo ao futuro. O que obriga a uma atitude séria e responsável por parte de todos os atores do setor.

Enquanto cidadão, consultor e gestor associativo no sector, sei por experiência própria – os péssimos quadros decisórios do passado são as minhas melhores testemunhas e comprovadas provas dos maus caminhos prosseguidos – que sem Estratégia o Turismo, sector que elevado ao “altar das prioridades” não se vai longe. Mas também não ignoro nem menosprezo o perigo de estratégias erradas ou de falsas estratégias, que, tal como se tem visto, apenas servem para esconder e disfarçar interesses oportunistas de grupos de interesses bem organizados, ou então mais não são que mera propaganda política, paga a peso de ouro, que nem a França ou a Itália, países-destino estarão algum dia disponíveis para pagar. As vaidades e tudo o que se esconde debaixo do “diáfano manto da fantasia” custam caro e, invariavelmente, servem sempre os mesmos do costume: aqueles que estão montados no carrossel político.

Ao longo de quarenta anos que levo de caminho, já tivemos de tudo um pouco no Turismo nestas últimas décadas: desde o secretário de estado bancário que apenas estava preocupado com a melhoria da higiene nas casas de banho dos cafés e restaurantes, até à secretária de estado que só sabia que nada percebia de Turismo, mas que foi para o lugar, pois precisava desse cargo para valorizar o seu modestíssimo curriculum. O Turismo é uma área demasiado séria da Economia para naturalmente lhe ser reconhecida a importância de uma sólida visão estratégica. Mas qual visão estratégica?! Uma dominada pelo Estado? Uma mais liberal, estruturada na associação de municípios em cima dos territórios-marca? Ou uma mista, uma espécie de “parceria público-privada” entre municípios e agentes privados do sector? Mas afinal o que deve caber ao Estado?! O mínimo, mas isso é outra conversa para mais à frente.

Tenho para mim que o SET (secretário de estado do turismo) que melhor soube interpretar o seu papel foi Licínio Cunha, homem preparado e com sólido conhecimento da Economia do Turismo (leia-se a sua extensa e qualificada obra publicada), o qual promoveu o primeiro Plano Nacional de Turismo (1985-1988) – Linhas Orientadoras para uma nova Politica de Turismo em Portugal (estávamos com o pé na CEE e com uma mão nos Fundos Comunitários) – que, partindo de uma caraterização de uma quadro de Oferta – aquilo que já era a “produção nacional” – aspirava sobretudo apontar direcções de trabalho, objetivos, prioridades e estruturar um pensamento liberal partilhado, entre instituições públicas e privados, sobre as perspetivas futuras do Turismo no quadro dos desafios que já despontavam. Mas como bem diz o povo, “o diabo está nos detalhes” e aqui o “diabo” estava em regiões de turismo, lideradas por maus presidentes de Junta, suportados no amiguismo autárquico, para quem Turismo era “dolce fare nienteen la dolce vita”.

E depois foi aquilo que quase toda a gente sabe em governos seguintes: para além de propostas de medidas pontuais, sempre com muita “parra e pouca uva”, ao som de muita pompa e circunstância, o PENT (Plano Estratégico Nacional do Turismo) com as suas várias versões – a original em 2006, uma nova versão em 2011 e ainda em 2013. Desta última o melhor é nem falar. Pelo meio tivemos GoDeeper’s e TopTen’s, West Coast’s e Pin’s, Allgarve’s, Ryder’s Cups, Flóridas da Europa, etc., tudo ditado pelos interesses da Banca, sempre apostada no “turismo imobiliário”, em mais despesa pública em grandes infraestruras e a agenda dos maiores grupos hoteleiros, que é quem tem comandado o rumo.

Porém, na prática, aquilo que se viu e ficou provado foi um navegar à vista, que conduziu à estagnação do crescimento até 2012 e, entre outras, à crise da imobiliária «turística». O PENT continha, sem dúvida, muita informação, análises e considerações importantes, mas não escondia a simpatia pela componente «imobiliária», faltando-lhe realismo na compreensão das especificidades regionais e das suas reais potencialidades. Esta experiência passada deve-nos servir de lição e alertar para a necessidade de aproveitarmos, agora, a importante proposta do Governo Estratégia Turismo 2027, de uma forma participada, construtiva e voltada para a ação.

Os tempos actuais dizem-nos que o Turismo, por força da liberalização algo desenfreada da aviação comercial, está a viver e vai continuar a viver cada vez mais, um profundo e imprevisível processo de transformação, sempre acima das possibilidades de cada país receptor, pois as “forças ocupantes” dos territórios assim o determinam. Porém, acontece que são os turistas que mudam. São as ofertas que se enriquecem e multiplicam. São os preços que baixam. É a concorrência cada vez mais feroz e implacável. Num mundo incerto, onde a pandemia foi apenas um dos grandes “elásticos” que nos bateu na cara e deixou marcas…..profundas.

Para vencer, para “liderar o turismo do futuro”, não bastará enveredar por esse curto caminho e enganar toda a gente com o “somos osmelhores do mundo”, sermos bons nas novas tecnologias, ganharmos todos os prémios, ocuparmos bons lugares nos rankings internacionais e estarmos nas bocas do mundo, seja ele impresso ou online. Os “outros” também lá estarão e a competitividade do futuro vai ser cada vez mais exigente, mais sofisticada, mais rigorosa e menos dominada pelo artificial chic.

Considero, pois, que devemos aproveitar esta oportunidade e exigir do Governo que aprofunde as propostas e desafie os empresários, as regiões e os cidadãos livres para um amplo debate, que não deve servir só para cumprir agenda ou protocolo. A extraordinária família do Turismo tem todas as condições para estar à altura deste desafio. De contrário jamais haverá condições objectivas e sustentáveis para bem receber 27 milhões de turistas, que daqui a meia dúzia de anos, tantos desejam e que continuarão a ser nosso ganha-pão. Mas não podemos continuar a viver de buchas, de migalhas e a ter vida de pobres formigas.

 

ANTERO FILGUEIRAS

O autor do artigo escreve de acordo com a antiga ortografia

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