Trabalhadores transfronteiriços “arriscam a vida” sem fronteira em Ponte da Barca
12 Fevereiro 2021, 13:50
Manuel Araújo é empresário em Ponte da Barca e nunca pensou que os caminhos outrora percorridos para o contrabando entre Portugal e Espanha fossem hoje a única solução dos trabalhadores transfronteiriços que "arriscam a vida para ganhar o sustento".
“Na terça-feira, um colega de trabalho caiu a um ribeiro e se não fossem os colegas o homem afogava-se. O Governo tem de ouvir estas coisas, porque se cai ao ribeiro e se não são os colegas a botar-lhe a mão, porque o rio ia muito cheio por causa da chuva, não sei se se safava”, afirmou hoje à agência Lusa o empresário, de 57 anos, da freguesia de Lavradas, Ponte da Barca, distrito de Viana do Castelo.
No Alto Minho, o atravessamento da fronteira durante 24 horas apenas está autorizado na ponte nova de Valença. Há também em Monção um ponto de passagem que está disponível nos dias úteis, das 07:00 às 09:00 e das 18:00 às 20:00.
Manuel Araújo disse ser o “desespero” que leva as pessoas a “arriscarem a vida todos os dias” face ao encerramento da fronteira da Madalena.
“Eu conheço a maior parte da gente que passa pelo monte. É tudo gente pobre. Pais de filhos, vivem mal e andam pelo meio do monte. Cai, morre um homem, como o caso da semana passada, que tem filhos na escola e quem vai trabalhar para essas crianças depois? Vai ser a mulher que trabalha no campo?”, questionou.
O empresário do setor da madeira justificou a travessia pelos montes que ligam as duas regiões transfronteiriças alegando que “a declaração de trabalhador transfronteiriço não vale de nada se as pessoas passarem a pé”.
“Serve para passar em Valença, mas não serve para passar a pé. Não deixam. Está a GNR a controlar”, sublinha.
Segundo Manuel Araújo, em março, aquando da primeira reposição de fronteiras entre os dois países, as autoridades “deixavam passar a pé, mas agora não”.
“O ano passado tínhamos a declaração e passávamos. Éramos controlados, às vezes, pela Guardia Civil, em Espanha, e não tínhamos problema nenhum. Este ano, já fomos controlados pela Guardia Civil. Na semana passada já me ficaram com os dados e se torno a ser apanhado vou ter de responder”, explicou o empresário.
No entanto, adiantou que “alguns empregados continuam a arriscar, como há 50 anos, pelo monte como contrabandistas”.
“Deixam o carro do outro lado da fronteira e passam o monte como antigamente os contrabandistas passavam. Nós também já arriscámos algumas vezes, mas tenho receio. Tenho um problema numa perna, e se caio? Ponho em risco a vida. Antigamente, os carreiros estavam limpinhos, agora é à sorte”, acrescentou.
Além dos riscos, Manuel Araújo alertou para os custos de tempo e dinheiro que a empresa que detém há 22 anos está a enfrentar com o encerramento da fronteira da Madalena, que fica agora “isolada” e “sem alternativas” de passagem para a Galiza.
“Os quatro camiões que temos estão parados porque não dá. Passamos de 80 quilómetros por dia, a ter de percorrer para quase 500 quilómetros. A nossa única alternativa para chegar a Espanha é ir pela fronteira de Valença ou ir por Chaves. Gastamos três horas e meia para fazer esse percurso porque paramos uma hora na fronteira de Valença, por causa do controlo. São sete horas por dia que andamos nos camiões e somos quatro equipas, de 20 trabalhadores, a fazer esse trajeto todo”, explicou.
Com o transporte parado, a sociedade que tem com os filhos “está a trabalhar apenas no corte da madeira nos montes”.
“Trabalho em Espanha há 20 anos. Compro 80% da madeira em Espanha. A maior parte desta madeira vai para a Europac, em Viana do Castelo, para fazer papel, outra para a construção civil, e outros setores”, referiu, considerando que a solução passa pela abertura parcial da fronteira da Madalena, no Lindoso.
Na semana passada, o presidente da Câmara de Ponte da Barca, Augusto Marinho (PSD), exigiu ao Governo a abertura parcial da fronteira da Madalena, por ser “única porta de entrada” do Alto Minho à província de Ourense, na Galiza.
“Não podemos aceitar esta situação por não ser justa. Não estamos a reivindicar a abertura da fronteira da Madalena por ser mais confortável, mas por ser uma necessidade importantíssima por falta de alternativa”, afirmou, na altura, Augusto Marinho.
Em março de 2020, durante o primeiro confinamento geral, com a reposição do controlo de fronteiras entre Portugal e Espanha, o único ponto de passagem autorizado para trabalhadores transfronteiriços e transporte de mercadorias, era a ponte nova, uma das duas que ligam Valença e Tui, mas após protestos dos autarcas dos dois lados do rio Minho, Portugal e Espanha acordaram a abertura das pontes que ligam o concelho de Melgaço a Arbo, Monção a Salvaterra do Miño, e Vila Nova de Cerveira a Tomiño, sendo que a fronteira da Madalena só reabriu a 01 de julho.




















