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Opinião

Um pórtico e quatro lembretes

José Luís Carvalhido da Ponte

02 Junho 2021, 9:41

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A nossa história de vida é a história de uma viagem. Entre o tempo do primeiro choro e o momento da partida há uma estrada, que umas vezes é farta avenida, outras estrangulada via. Neste percurso, como nas nossas físicas autoestradas, há também pórticos e brigadas de trânsito ou brigadas pedagógicas ou, tão somente, assertivos lembretes.

Até hoje, a minha estrada privilegiou um só pórtico, primus inter pares, onde a vida, sucessivamente, implantou três brigadas ou três lembretes. A partir de hoje, continuo com o mesmo pórtico, mas aumentaram-me para quatro, as brigadas de trânsito.

Por este pórtico passamos todos: é o pórtico da cidadania, se quisermos é o pórtico político, no sentido etimológico da palavra. Uns passam e pagam a portagem, mas outros escondem a matrícula para não cumprirem.

Na verdade, há milhares ou milhões de anos tudo era de todos: o mar era de todos; os rios eram de todos; a terra era de todos. O mel escorria nas árvores e o leite fluía nos rios. Os gregos chamaram-lhe a idade do ouro, do tempo em que o homem vivia em perfeita harmonia com a sua circunstância e a natureza, em contrapartida, gratuituava-lhe a necessária sobrevivência. A Bíblia chamou-lhe o éden, o paraíso. Foi o tempo em que não havia barreiras artificiais. Entretanto os homens começaram a levantar, uns as suas torres de pisa, invejosos por não serem deuses; outros rodearam-se de muros com medo de que os animais bravios lhes maltratassem os rebanhos. Depois, os terrenos intramuroscomeçaram a tornar-se exíguos e os homens sentiram necessidade de alargar,invadindo os espaços dos demais. Foi vencendo a lei do mais forte. Foram os primeiros resorts. E foram-se dividindo as águas: de um lado os ricos e, fora das muralhas, ospagani (habitantes do pagus, da aldeia), os desprotegidos, os pobres.

Hoje, esta luta continua e os mais fortes mandam milhares de homens e mulherespara o desemprego, para a prostituição, para a droga, para o roubo, para a morte.  São os pagani da nossa modernidade.

Eu tive a sorte de nascer no lado bondoso da vida, dentro das muralhas do necessário conforto, mas não posso esquecer os que, para lá dos muros, como Dédalo e Ícaro, buscam fugir aos labirintos da ausência. Por isso, quando me esqueço de partilhar um pouco do meu tempo, das minhas competências e até às vezes dos meus haveres,aparece-me loguinho uma brigada com a luzinha vermelha do “não pagaste a portagem”.

Para que não esqueçamos o objetivo do pórtico, cada um tem, ou deverá ter, os seus lembretes, as suas brigadas de trânsito

Aqui vão os meus:

A primeira brigada, incutiu-ma a família quando me instruiu numa religião que me ensinou que todo o homem é meu irmão. Como posso pois não partilhar o meu tempo, as minhas competências e até às vezes os meus haveres com o meu irmão, quando ele precisar?

O segundo lembrete de trânsito, ou pedagógico, se quiserem, veio-me da minha formação académica. Com efeito, vários autores greco-latinos me marcaram. Não direi, contudo, que o dramaturgo Terêncio tenha siso um deles, mas há uma frase sua que jamais esqueci e procuro respeitar: homo sum etnihil humani a me alienum puto, sou homem e nada do que é humano me é alheio. Como posso, então, esquecer-me do Outro?

O terceiro lembrete trouxe-mo o movimento rotário, há uns bons 15 anos. Convidaram-me para Rotary, mas antes de entrar advertiram-me que o lema impunha dar de mim antes de pensar em mim, que o mesmo é dizer que, se queremos construir o nosso percurso de felicidade, devemos perguntar a quem nos rodeia: faço-te feliz? Que necessitas para te sentires melhor? Com Rotary, reforcei o necessário sentido da conexão universal.

Hoje, largaram-me na estrada um quarto lembrete ao distinguirem-me com o galardão de Cidadão de Honra da minha cidade, pelo meu percurso todo, mas em especial pelo meu percurso humanitário.

Um cidadão é um político e, como tal, tem o dever de pugnar pela sua civitas, pela sua pólis,pelanossares publica, mas com ética, com o sentido de que tal encargo é um dever e não um favor,com honra, até porque lhe é exigido exemplo para os demais, em especial para os mais jovens.

Assim, quando às vezes me esqueço, acende-se sempre uma luzinha: ou a da minha religião (Caim, onde está tu irmão Abel?),ou do humanismo clássico (como te arvoras em humanistae não escutasos lamentos que te circundam?), ou a do Rotary (causas sem ações não passam de blablabla, amigo!). Agora acender-se-á também a da minha cidadania (então, Zé, será que em ti acertadamente se aplica o bem prega Feri Tomás?)

O município quis homenagear-me, e fê-lo, mas acrescentou-me responsabilidade. Estou-lhe, contudo, grato por isso.

Mas porque nenhum homem é uma ilha, se algo fiz que merecesse esta distinção, devo-o a muita gente: à minha família e a vários amigos que acreditaram nos meus sonhos e caminharam comigo ou me entusiasmaram a caminhar. Devo-o, ainda, a todos quantos (na minha terra ou em Moçambique ou na Guiné)têm aceitado e parabenizado a mão que venho estendendo desde 67. Já lá vão 54 anos de voluntariados, de cooperação para o desenvolvimento, de partilha … às vezes, provavelmente, incompleta e defeituosa, mas sempre sincera.

Com todos estes amigos, partilho esta distinção!

José Luís Carvalhido da Ponte

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