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UMA QUESTÃO DE AUTORIDADE – REMAKE

César Brito

28 Junho 2021, 9:00

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Quem escreve crónicas em total liberdade editorial e com tema não pré-definido, como é o caso, tem volta e meia dilemas para resolver. Andava eu a maturar umas ideias sobre a trapalhada do fornecimento de dados pessoais pela Câmara de Lisboa à Embaixada da Rússia quando outros acontecimentos da semana vão de encontro ao tema da última crónica que aqui publiquei. Os leitores menos assíduos poderão ainda encontrá-la nesta plataforma mas, recordo, tinha a ver com as condições do exercício da autoridade do estado e das consequências da falta delas, tendo Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna, como “enquadramento” para usar uma palavra que lhe é muito cara.

Esses acontecimentos e as atitudes consequentes (ou falta delas), que eu à data não poderia prever, acabam por realçar a minha tese e são exemplos daquilo que quis expor, assentando-lhe que nem uma luva. Na hora em que me sentei a escrever este texto, acabei por sacrificar o novo tema (talvez ainda venha a pegar nele) para retomar o anterior aproveitando o ensejo com que as notícias da semana me bafejaram.

Tivemos, pois, na mesma semana duas ocorrências directamente relacionadas com o azarado ministro (digo-o sem ironia) sendo que, sobre ambas, caiu um ensurdecedor silêncio ministerial, tanto mais estranho quanto este é o precisamente o ministro que tantas vezes vimos a falar grosso e demais quando não devia!

A primeira situação tem a ver com o atropelamento mortal que a sua viatura oficial provocou na auto-estrada A6. Obviamente foi um lamentável acidente, mas acho estranho o silêncio e a falta de detalhes sobre as circunstâncias da ocorrência. Não estava à espera que o ministro viesse explicar os factos com todos os detalhes nem isso seria adequado, até porque as autoridades competentes tratarão dos inquéritos e investigações normais nestas circunstâncias. Mas já achava adequado que o Estado, que o ministro supostamente representa, tivesse marcado presença no funeral da vítima, dadas as circunstâncias extraordinárias do acidente, em vez de se cingir à emissão de uma burocrática nota de condolências à família. Mas o que não estava mesmo nada à espera era que perante o silêncio de detalhes públicos, que até se pode compreender e aceitar à luz do dever de reserva perante uma investigação em curso, o MAI emita “ esclarecimentos às redacções” para dizer à opinião pública que “não existia sinalização para alertar os condutores dos trabalhos de limpeza em curso na auto-estrada A6” e que “o trabalhador atravessou a faixa de rodagem, próxima do separador central, apesar de os trabalhos de limpeza em curso estarem a decorrer na berma da auto-estrada”. Ou seja, o silêncio é a regra excepto para se transmitir que a culpa é nitidamente do atropelado e, portanto, o julgamento dos factos não tem que ser do domínio da opinião pública, mas quanto à sentença esta fica já devidamente elucidada!

Pior ainda foi o caso da manifestação de elementos das forças de segurança em Lisboa organizada pelo Movimento Zero. Não ponho em causa o direito a manifestação e protesto nem a justeza das reivindicações. Mas façamos um resumo: durante meio-dia andaram umas centenas de polícias pelas ruas de Lisboa, bloqueando o trânsito e desrespeitando sem aviso prévio o local de concentração e circulação com os quais se comprometeram quando solicitaram autorização, envergando pólos e bonés da PSP e da GNR o que é considerado uso indevido da farda pelos seus regulamentos, ameaçando forçar as barreiras de segurança que protegiam a Assembleia da República, insultando o Governo em geral e o ministro Cabrita em particular, incentivando à desobediência e ao incumprimento da lei, liderados por um movimento inorgânico, sem rosto mas que toda a gente já percebeu que está sob controle de forças da extrema direita e altamente infiltrado nas forças de segurança do país. De uma penada, homens que andam armados e a quem todos nós pagamos para nos defender e para fazer cumprir a lei e a ordem, desrespeitaram efusivamente o Governo, os colegas de profissão, os cidadãos e o juramento de missão que fizeram, fazendo tábua rasa da autoridade do Estado e minando um dos pilares fundamentais da democracia e do estado de direito. E que tem o “ministro das polícias”, que falava de mais, a dizer sobre isto? Absolutamente nada!

É natural. Lembram-se do que escrevi na crónica anterior? Pois é, nesta altura até já o próprio percebeu que perdeu completamente a autoridade e o respeito e, mesmo que ocupe a cadeira, o seu cargo está num vazio político. O problema é que se a situação anterior era irritante, esta agora pode tornar-se demasiado perigosa.

 

César Brito

Por opção pessoal o autor escreve segundo a antiga ortografia

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