Estudo da UNIPVC distinguido pelo Comité Olímpico de Portugal
30 Outubro 2026, 16:25
Ter uma prancha, dominar a técnica e saber enfrentar as ondas não significa ter as mesmas oportunidades no surf. As experiências das mulheres nesta modalidade são também influenciadas por fatores que vão além da prática na água: o acesso à competição e aos patrocínios, as relações com treinadores e colegas e a forma como são reconhecidas. Compreender estas diferenças, mas também os fatores que favorecem a participação feminina, esteve na origem de uma investigação liderada por Bruno Silva, docente da Universidade Politécnica de Viana do Castelo (UNIPVC), agora distinguida com uma menção honrosa pelo Comité Olímpico de Portugal, na categoria de História e Sociologia do Desporto, no âmbito dos Prémios Ciências do Desporto COP | Repsol 2026.
O estudo, intitulado “Understanding women experiences, perceptions and gender dynamics in surfing: an ecological approach”, foi desenvolvido por Bruno Silva, docente da Escola Superior de Desporto e Lazer (ESDL-UNIPVC) e investigador integrado do SPRINT – Centro de Investigação e Inovação em Desporto, Atividade Física e Saúde. O trabalho conta com a coautoria de Ricardo Lima, também docente da ESDL-UNIPVC e investigador do SPRINT, e de Ingrid Hinojosa-Alcalde e Joana Sans-Osanz, do Institut Nacional d’Educació Física de Catalunya (INEFC).
Desenvolvida em colaboração com o Surf Clube de Viana, a investigação procurou compreender como as mulheres vivem a prática do surf e de que forma as suas experiências são condicionadas ou favorecidas por fatores individuais, sociais e culturais. Mais do que identificar diferenças entre homens e mulheres, o trabalho pretende contribuir para compreender os mecanismos que influenciam a participação feminina e as oportunidades de continuidade e progressão na modalidade.
A distinção, entregue esta semana, na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, aconteceu durante a cerimónia da 10.ª edição dos Prémios Ciências do Desporto COP | Repsol. Pedro Bezerra, diretor da Escola Superior de Desporto e Lazer, participou na cerimónia em representação do coautor Ricardo Lima, impossibilitado de estar presente.
As desigualdades nem sempre são visíveis dentro de água
Uma das particularidades da investigação está na abordagem ecológica utilizada para estudar as experiências das mulheres no surf. Em vez de analisar isoladamente as motivações ou os comportamentos das praticantes, os investigadores procuraram compreender a interação entre diferentes dimensões da sua experiência desportiva.
O estudo considerou fatores individuais, como as perceções e vivências das mulheres, mas também as relações estabelecidas com familiares, colegas e treinadores, as características dos ambientes de prática e as normas socioculturais associadas à modalidade.
Os resultados evidenciam que o surf pode proporcionar experiências positivas, nas quais a relação com o oceano e as sensações associadas à prática assumem particular importância. O apoio de familiares, colegas e treinadores surge igualmente como um fator relevante, tal como os programas náuticos escolares, que podem facilitar o primeiro contacto com a modalidade.
Contudo, a investigação identifica também obstáculos que continuam a marcar as experiências femininas. Entre eles encontram-se as desigualdades nas oportunidades de competição, as dificuldades no acesso a patrocínios, a representação das mulheres no universo do surf e a influência de normas tradicionalmente masculinas na cultura da modalidade.
Estes resultados ajudam a compreender por que razão o acesso à prática, por si só, não garante condições de igualdade. Uma rapariga pode começar a praticar surf, desenvolver competências técnicas e encontrar satisfação na modalidade, mas continuar a enfrentar obstáculos que influenciam as suas possibilidades de evolução e reconhecimento.
A igualdade no desporto não se mede, por isso, apenas pelo número de mulheres que o praticam. Importa também perceber em que condições participam, que oportunidades encontram para progredir e de que forma o seu percurso é valorizado.
Uma inquietação pessoal que se transformou em investigação
Na origem deste trabalho esteve também uma experiência pessoal de Bruno Silva. Ao acompanhar o percurso desportivo da filha numa modalidade predominantemente masculina, o docente e investigador começou a questionar as oportunidades e os obstáculos que raparigas e mulheres encontram ao longo da sua participação no desporto.
A observação dessa realidade despertou o interesse por compreender de que forma as desigualdades de género se manifestam nos contextos desportivos, mesmo quando o acesso à prática parece estar assegurado.
Foi a partir dessa reflexão que surgiu a vontade de aprofundar o conhecimento sobre as experiências das mulheres no surf, uma modalidade em que as vivências individuais se cruzam com relações sociais, estruturas de oportunidades e referências culturais.
O trabalho nasceu no âmbito do Sport for Development Center da Escola Superior de Desporto e Lazer da UNIPVC, numa perspetiva que reconhece o desporto não apenas como espaço de prática física e competição, mas também como contexto de desenvolvimento pessoal, inclusão e transformação social.
A colaboração com o Surf Clube de Viana permitiu aproximar a investigação da realidade da modalidade, estabelecendo uma ligação entre o conhecimento produzido na academia e as experiências vividas nos contextos de prática.
A participação de investigadores da UNIPVC e do INEFC reforça, por sua vez, a dimensão internacional do trabalho e a importância da cooperação científica na análise de questões que atravessam diferentes realidades desportivas.
Do conhecimento científico à transformação das práticas desportivas
A relevância da investigação não se esgota na identificação das desigualdades. Os resultados apontam também caminhos para que clubes, treinadores, escolas e organizações desportivas possam contribuir para ambientes de prática mais equitativos.
Entre as possíveis aplicações estão a integração da igualdade de género na formação de treinadores, a criação de contextos de prática seguros e inclusivos e o desenvolvimento de estratégias que facilitem a continuidade das raparigas na modalidade após os primeiros contactos, nomeadamente através de programas escolares.
A investigação chama ainda a atenção para a necessidade de acompanhar as oportunidades de participação, competição e liderança, de modo a identificar obstáculos que nem sempre são evidentes quando se observa apenas o número de praticantes.
Esta perspetiva permite olhar para o desenvolvimento desportivo de forma mais abrangente: não basta criar condições para que mais raparigas experimentem uma modalidade; é igualmente importante assegurar que encontram motivos, apoio e oportunidades para nela permanecerem e evoluírem.
Ao relacionar experiências individuais com fatores sociais e culturais, o estudo oferece contributos para a reflexão sobre as práticas de formação, as políticas de promoção da participação feminina e o papel das organizações desportivas na construção de condições mais equitativas.
UNIPVC reconhecida pelo Comité Olímpico de Portugal pelo segundo ano consecutivo
A menção honrosa atribuída ao trabalho liderado por Bruno Silva assinala o segundo ano consecutivo em que a investigação desenvolvida na UNIPVC é distinguida nos Prémios Ciências do Desporto COP | Repsol.
Na edição de 2024/2025, a instituição conquistou o primeiro lugar na categoria de Psicologia e Pedagogia do Desporto, com o estudo “Improving Motor Competence of Children: The ‘Super Quinas’ Intervention Program in Portuguese Primary Schools”, liderado por Luís Paulo Rodrigues, docente, investigador do SPRINT e pró-reitor da UNIPVC para a Investigação, Desenvolvimento, Inovação e Tecnologia.
Embora incidam sobre realidades distintas, os dois trabalhos partilham uma preocupação com a forma como o conhecimento científico pode contribuir para melhorar as experiências e as oportunidades de participação no desporto.
O reconhecimento consecutivo em duas categorias diferentes é demonstrativo também a diversidade das áreas de investigação desenvolvidas na ESDL-UNIPVC e no SPRINT, desde o desenvolvimento motor na infância até às dimensões sociais e culturais da prática desportiva.
A edição de 2026 dos Prémios Ciências do Desporto COP | Repsol recebeu 60 candidaturas, um aumento de cerca de 62% relativamente à edição anterior que contemplou as mesmas áreas científicas.






















